Programa RePacificar: Ressignificação do conflito e reconciliação

A sociedade apresenta, culturalmente, uma dificuldade em lidar com situações conflituosas. Ainda enxergamos os conflitos como algo ruim, negativo, limitando nossa visão estritamente à periferia dos fatos, não conseguindo enxergar as mensagens que estão nas entrelinhas dos conflitos e, na maioria dos casos, não enxergando os problemas que originam o conflito.

Imaginemos uma parede mofada, descascando por excesso de umidade. A situação da parede ocorre pelo conflito entre elementos, onde o excesso de água reage aos componentes da parede (areia, cimento, tinta, etc.). Essa consequência inicial pode gerar várias outras, como: problemas de saúde, móveis mofados, fazer cair objetos fixados na parede ou mesmo a própria parede. Todos esses inconvenientes são consequências, não a causa. A causa desse excesso de água e mofo na parede, o problema originário, pode ser uma infiltração proveniente da chuva, por meio capilar (quando a água entra por baixo da estrutura da construção), ou devido a um cano na parede com vazamento. Estas são as possíveis causas originais, o problema originário, que tem que ser corrigido ou pelo menos contido.

Dentro dessa visão, distinguimos o problema originário do conflito gerado (causa e consequência) e estabelecemos como foco resolver o problema originário, e não ficar remediando o conflito.

Assim, nasceu o Programa RePacificar, que desenvolve ações em cultura de Paz, fruto de uma pesquisa científica. Trata-se da convergência de resultados de diversos estudos e trabalhos realizados desde o ano de 2005.

A escolha do termo RePacificar deve-se por uma ressignificação histórica, onde no Brasil o termo “pacificação social” tem forte conotação de “repressão” e supressão silenciosa de direitos, de “paz de cemitério”, completamente diferente da proposta que ora apresentamos, onde pacificar é dar voz e autonomia, é prevenir e resolver conflitos por meio do diálogo, não pelo silêncio.

O programa tem como objetivo desenvolver projetos e disseminá-los na comunidade, e dentre eles citamos o Projeto Terceiro Olhar. O projeto Terceiro Olhar tem como proposta ressignificar conflitos e promover práticas de reconciliação em escolas e comunidades, fomentando uma política educacional voltada para o fortalecimento do diálogo e prevenção.

A ressignificação inicia-se pela visão que temos do conflito, que pode ser um forte aliado no diagnóstico do problema originário e possibilitar sua resolução real. Ressignificar o conflito diz respeito a fortalecer as partes conflituosas, especialmente quando lidamos com um indivíduo em conflito consigo mesmo, empoderando o ser em conflito para que ele seja agente protagonista dessa ressignificação. Acreditamos que somente as partes são os legitimados a ressignificarem seus conflitos.

Usamos o termo RECONCILIAÇÃO para trazer a proposta para o foco do indivíduo se reconciliar consigo mesmo. É importante distinguir essa abordagem da conciliação judicial, que em muitos casos se prende a resultados baseados em acordos, estatísticas, atuando na periferia dos conflitos identificados pelas partes, que via de regra se mostra muito distante do problema originário. Esse método é eficaz em situações especificas, que comporta soluções imediatas e não visa a continuidade de relacionamento das partes ou que não geraram conotações emocionais. Inclusive, acreditamos que o termo CONCILIAÇÃO não deveria ser tratado como método de resolução de conflitos, por ser um objetivo a ser atingido, uma meta. Mas isso não vem ao caso neste momento.

O método atualmente adotado pelo programa para atingir tal finalidade é a MEDIAÇÃO DE CONFLITOS, em especial a abordagem transformadora, dentro de uma multidisciplinariedade.

A mediação nos traz uma visão mais madura de abordagem aos conflitos, onde um terceiro imparcial, tecnicamente habilitado e, principalmente, emocionalmente estável, auxilia as partes a compreenderem que o conflito, que na maioria dos casos é uma consequência de problemas enraizados em si mesmas.

O mediador conduz as partes por meio da autonomia e do empoderamento, ressignificando seus pontos de vista, devolvendo a elas o protagonismo que em algum momento foi perdido, ou pior, delegado a terceiros. A decisão de reconciliação de cada um consigo mesmo ou de cada um com o outro cabe tão somente às partes.

Citamos as palavras dos professores da Universidade de Harvard, William Ury, juntamente com Jeanne Brett e Stephen Goldberg (1997), que consideram os conflitos como a chuva, quando “uma vez canalizados apropriadamente podem trazer benefícios para promover mudanças. Contudo, fora de controle, podem causar uma inundação devastadora”.

O Programa RePacificar, uma iniciativa privada desenvolvida pelo Ninomiya Institute que desenvolve pesquisas e projetos em Desenvolvimento Humano, hoje dissemina em Goiás ações concretas em cultura de Paz, com foco preventivo em escolas e comunidades.

Por Akira Ninomiya Júnior

Akira Ninomiya Júnior – Mediador de Conflitos pelo Programa de Negociação da Universidade de Harvard. Membro da Associação de Resolução de Conflitos de Nova Iorque. CEO da Ninomiya Corporation. Autor e coordenador geral do Programa RePacificar.